Afinações

O “mistério” das afinações alteradas

Das 12 músicas do disco Vambora (2010), da cantora Glaucia Nahsser, do qual fui produtor e arranjador,  dez delas gravei o violão com afinações diferentes da convencional. No frigir dos ovos, foram nove tipos de afinação diferentes oferecendo sonoridade distinta para cada canção e ao disco como um todo, mesmo que o ouvinte não perceba (e nem tem a obrigação) que o violão está afinado de forma “esquisita”.

vamboraO conceito de afinações alteradas ou afinação aberta (dropped ou open tunning) no violão é pouco difundida no Brasil, pelo menos na música pop. No entanto, é algo corriqueiro em variados estilos musicais nos EUA e Europa. Essas afinações “esquisitas”, como dizem os leigos, fazem parte das origens do blues, da música folk e até mesmo no rock e pop. Exemplo disso, são Joni Mitchell, Led Zeppelin, Nick Drake, Dave Matthews, White Stripes, Sonic Youth e mais um container de outros artistas.

Por natureza, instrumentos de cordas com tarraxas permitem tensionar determinada corda até que se atinja determinada tensão na corda,o que  gera uma frequência específica (nota musical). Isso acontece com o violão, cavaquinho, violino, viola caipira, bandolim e muitos outros instrumentos.

De modo geral, cada instrumento tem uma afinação padrão, que por razões culturais ou técnicas define a nota que cada uma das cordas emitirá quando tocadas de forma “solta”. No violão, seja no de cordas de nylon ou de aço, a afinação padrão é MI, LÁ, RÉ, SOL, SI e MI (EADGBE, da corda mais grave para a mais aguda,). Como na tabela abaixo:

 

CORDA NOTA FREQUÊNCIA NOTAÇÃO FORMAL
1 (mais aguda) Mi 330 Hz E4
2 Si 330 Hz B3
3 Sol 247 Hz G3
4 196 Hz D3
5 110 Hz A2
6 Mi 82 Hz E2

 

No entanto, a afinação padrão de um instrumento como o violão não é algo obrigatório e nada impede de você girar as suas tarraxas para obter uma nova combinação de notas entre suas cordas. E é que fizeram e ainda fazem uma grande quantidade de músicos ao redor do globo.

Afinações alternativas
As afinações alternativas mais comuns são aquelas que baixam a tensão todas as cordas de modo uniforme. Artistas como Jimi Hendrix, Black Sabbath, Nirvana entre outros, já afinaram o violão ou guitarra meio tom abaixo, por exemplo, com intenção de dar mais “peso”  ao instrumento ou então para adequar à extensão vocal do cantor. Não por acaso, bandas de black metal, onde peso e o ar sombrios dos graves são fundamentais,  chegam a transpor seus instrumentos três tons ou mais abaixo do padrão. As transposições para notas mais altas, por sua vez, são menos comuns pois podem esticar demais as cordas até se romperem ou exigir cordas mais finas. O Capo Traste, dispositivo que se prende ao braço do violão ou guitarra, normalmente é a solução mais adotada, pois permite transpor o tom para cima de forma bem prática.

Dropped tunnings
Também é muito usual violonistas e guitarristas alterarem a afinação apenas da cordas mais grave (sexta corda; mi), as chamadas dropped tunnings. A opção mais comum é baixar um tom (de mi para ré), caracterizando uma quinta perfeita entre a sexta e quinta corda (ré, lá).No choro ou estilo similar, muitas composições para violão se encaixam nesse exemplo, como Sons de Carrilhão, de João Pernambuco.

jimmy page Afinações abertas
Existem também as afinações alteradas ou “abertas” (open tunnings). Quando tocamos as cordas soltas de um violão afinado de forma padrão ouvimos o acorde Em7(11) numa inversão com sonoridade não muito funcional, tanto que é raro ouvir algum músico tocar neste modo todas as cordas soltas do instrumento numa canção. 

Já na afinação de blues ou de slide — nomes populares do esquema DGDGBD (ré, sol, ré, sol, si, ré) —,  as cordas soltas do violão formam uma acorde de sol maior. Com a tríade perfeita da escala maior (sol, si, ré), o som das cordas soltas soam mais brilhantes e musicais. Embora esteja associada aos blueseiros, a afinação é utilizada em diferentes estilos por ser uma das mais fáceis de ser assimiladas, já que é fácil tocar um acorde maior em qualquer ponto da escala (basta fazer uma simples pestana).

Outra afinação aberta bastante usual é a DADGAD (ré, lá, ré, sol, lá, ré), da qual Jimmy Page, guitarrista do Led Zeppelin, era uma habitué (entre outras tantas afinações). Basta ouvir a faixa instrumental Black Mountain Side, do primeiro álbum da banda, para sentir a sonoridade. No Brasil, André Geraissati (onde anda ele?) — um dos músicos brasileiros (que eu saiba) que foi pioneiro ao se aventurar abertamente pelo mundo das afinações abertas no violão —lançou nos anos 80 um disco chamado justamente DADGAD.

É importante uma ressalva. Embora não seja comum na MPB ou no pop nacional, a afinações alteradas é da natureza de quem toca viola caipira, os chamasdos violeiros. Existem dezenas de variações e  os violeiros dão apelidos para elas como “Cebolão” e “Rio-Abaixo”.

Mais Brilho
É importante lembrar que instrumentos de cordas geralmente permitem tocar uma mesma nota em diferentes cordas, de modo que a nota MI (E4) da primeira corda pode ser tocada no quinto traste da segunda  ou na nono traste da terceira. Como as cordas as cordas possuem espessuras e até revestimento diferentes, as notas não soam com o mesmo timbre (mais aveludado nas cordas mais graves). Similarmente, as notas da cordas soltas brilham mais do que quando tocadas com o dedo sobre a escala. Além disso, cordas soltas podem ressoar a partir de outras notas, gerando um efeito similar ao do piano. Parte da magia das afinações alternativas reside neste princípio.

joni mitchell

As cores da afinação
As opções de afinações abertas são muito diversas pois variam com do gosto do freguês, que é quem  tem o controle das tarraxas do instrumentos. A cantora Joni Mitchell (uma das inspirações para os arranjos do disco de Glaucia), que já usou dezenas de afinações diferentes em suas músicas desde o final dos anos 60, conta que aprendeu a tocar violão sozinha. Como era pintora antes de seguir a carreira musical, quando começou a compor, procurava nas afinações a paleta de cores musicais. Ela não via sentido em ficar presa a apenas uma afinação já que havia tantas outras colorações.

Nova Afinação Padrão
Já o lendário guitarrista Robert Fripp, mentor da cultuada e arrojada banda King Crimson,  desde 1984 simplesmente abandonou a afinação padrão da guitarra para adotar o que considera a “Nova Afinação Padrão” (NST, New Standart Tunning), muito embora seja adotada por um número relativamente pequeno de músicos, em geral alunos e discípulos de mestre Fripp.  A NST utiliza o esquema CGDAEG (dó, sol, ré, lá, mi, sol), ou seja, as cordas afinadas em quinta a partir do Dó,  similar ao violoncello, com exceção da primeira cordas (sol, a mais aguda), uma terça menor acima do mi (segunda corda neste esquema, e primeira na afinação padrão). Com essa afinação, Fripp consegue estender as oitavas do instrumento e ter opções de acordes harmonicamente mais “densos” e extensos.

michael hedgesMúsica a música
No disco Vambora, podemos dizer que as músicas escolheram as afinações e não o contrário. As afinações foram um reflexo da tonalidade ou a “paleta de cores” da canção, no bom estilo Joni Mitchell. Outra grande influência, foi o violonista norte-americano Michael Hedges, morto precocemente em 1997, que não apenas usava quase que exclusivamente afinações alternativas como também ajudou a consolidar um estilo de tocar que une técnicas percussivas, o uso das duas mãos sobre as escala (tapping), controle de sustentação sobre cada corda e uma série de habilidades difíceis de se descrever em texto (mais fácil ver em vídeo).

A seguir, confira as afinações utilizadas e sua relação com cada música do disco.

DGDGBbD – Canto, Logo Existo / Vambora
Afinação forma o acorde Gm/D (sol menor com baixo e ré). Basicamente a afinação mencionada de blues só que em tom menor, sendo a única afinação usada duas vezes no disco. Canto, Logo Existo abre o disco com o violão inspirado em Michael Hedges que dá o tom original de folk misturado com ritmos brasileiros e com interlúdios à la Beatles. Já Vambora, traz a pegada de violão mais pop, com uma pequena puxada de blues, em cima da base afro-world.

EBDGBD – Olhar de Prata
A afinação forma o acorde Em7 (mi menor com sétima) com a quinta corda esticada um tom acima. Essa combinação permitiu criar acordes com sonoridade mais exótica, levando o arranjo para o oriente médio.

CGCGCE  – Pensando em Você
Afinação que forma o acorde C (dó maior). Com sexta corda afinada dois tons abaixo, criando uma tom aberto, profundo e emocional,  criando um contrapeso à suavidade melódica desta balada.

BGBGBD – Daqui Pra Frente
Afinação que forma o acorde G/B (sol maior com baixo em si) com a sexta corda descendo dois tons e meio, gerando um baixo profundo para os padrões do violão, junto com os acordes que se aproveitam das cordas soltas para gerar um clima misterioso, ao mesmo tempo que a mão direita bate o aro da boca do violão junto com o acorde gerando um forte ataque percussivo (técnica emprestada de Michael Hedges).

EBEG#BE – Roda
Afinação que forma o acorde de E (mi maior), com três cordas afinadas acima do padrão. O resultado é uma coloração brilhante e alegre, aliada à batida pop.

nigroEBDGBE – Leleô
Afinação que forma o acorde de Em7 (mi menor com sétima),  com apenas  a quinta corda alterada um tom acima. Também foi utilizado o Capo Traste na quarta casa do braço para transpor o tom para a tonalidade da música (G#m ou sol sustenido menor).

DADGAD – O Começo do Infinito
Afinação que forma o acorde de Dsus4 (ré maior com a terça suspensa). A idéia dessa música  é a mistura de samba com o folk, que acabamos por batizar como “samba celta”. Até mesmo os cavaquinhos seguiram o mesmo padrão de afinação.

DbAbDbGbBbDb – Quem Falou?
Afinação que forma o acorde de Gb9/Db (sol bemol maior com nona e baixo em ré bemol). Na verdade, uma variação de DADGAD, transposta meio tom abaixo para deixar a tonalidade mais confortável para cantar. Quem falou? é a música provavelmente mais inusitada do disco. Foi a primeira a ser trabalhada e a última a ser concluída. Acabou ficando também com a afinação mais “esquisita”. Não bastasse isso o riff inicial do violão é o mais difícil de tocar de todo o álbum.

DGDGBD – Mais Uma Vez
Afinação que forma o acorde de G/D (sol maior com baixo em ré). Embora o violão não seja o instrumento de maior destaque nessa música, a dinâmica da afinação acabou inspirando o arranjo e as convenções musicais que resultaram num folk meio cigano.

Por fim, as duas outras duas músicas  restantes do álbum, Malandra e Quebradeira, foram as únicas cujos arranjos não partiram de afinações alteradas. A primeira teve seu mote nas frases minimalistas do fagote, clarinete e flauta. Já o arranjo de Quebradeira nasceu do riff na onda Stevie Wonder composto no violão nylon (com afinação padrão) e das progressões de acordes da música brasileira (bossa, clube de esquina) aliadas a pitadas de funk, samba e levada de capoeira.

 

 

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