Archive for May, 2004

Votar na marta?

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Em quem você pretende votar para prefeito? Você eu não sei, mas eu vou votar na Marta Suplicy nas eleiç¿ees municipais desse ano. Não sou muito fã dela e até acho que medidas como a taxa do lixo, luz etc. pegaram mal. No entanto, penso que ela vem conquistando coisa importantes para São Paulo e darei um voto pela continuidade dessas pol’ticas.

A prefeita comprou uma briga séria com a máfia do ônibus, mesmo sabendo que isso implicaria numa fase dif’cil para sua popularidade. De modo geral, ela foi bem sucedida e conseguiu melhorar o transporte urbano sobre rodas. Agora, implementou o bilhete único, algo que deveria existir há muito tempo, mas que nunca aconteceu porque Malufs e Pittas da vida jamais contrariam os interesses empresariais.

O bilhete único é fruto da vontade pol’tica de Marta e o PT. Claro, o sistema tem que melhorar. Porque não bilhetes semanais, mensais ou até anuais, com descontos progressivos? E tem também a integração com o metrô, o que depende também de Alckmin, que provavelmente vai segurar o processo pelo menos até a eleição, para não dar colher de chá à prefeita. Aliás, Alckmin também deverá segurar os investimento no TEU (Transporte Expresso Urbano), sistema de transporte sobre rodas que se baseia no Transmilenium de Bogotá, que oferece uma alternativa similar ao metrô e mais barata. Mas, um passo de cada vez.

Segundo Elio Gaspari, em sua coluna da Folha, o PT vem também implementando uma bem sucedida pol’tica de incentivos fiscais e estruturais à Zona Leste, que tem apresentado indicadores sociais e retorno de investimento (na forma de impostos) acima da média paulistana e até mesmo em relação ao resto do pa’s. Para Gaspari, a prefeitura prova que investir em pobre é bom negócio.

Para mim, esses motivos são suficientes para dar um voto de confiança ao PT em São Paulo (ao contrário do governo Lula, o qual eu não reelegeria hoje). Estamos falando de uma cidade maior do que muitos pa’ses. A maioria dos serviços públicos estão na mão de máfias variadas e com ligaç¿ees poderosas poderosa. São Paulo é inadministrável no modelo atual. Não haverá prefeito perfeito para essa cidade. Haverá, sim, candidatos dispostos a enfrentar algumas brigas e pular fora de outras. Só Bruce Lee lutava contra todos ao mesmo tempo, mas só porque nenhum de seus adversários usavam revólveres.

Porém, é verdade que não seria mal se o PT oferecesse o cargo de vice à Erundina…


O básico e o supérfluo

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Domingo fiz uma sessão dupla de cinema, com dois filmes que não poderiam ser de estilos mais opostos: o documentário francÃçs “Ser e Ter” e “Van Helsing” (chovia e eu estava sem carro; tentei ver Tróia mas já tinha começado a sessão… só sobrou esse mesmo).

“Ser e ter” fala sobre o básico: a relação entre um professor que ensina um grupos de crianças pequenas a ler e outro grupo mais velho que está prestes a entrar num colégio grande. O cenário é de um vilarejo francÃçs, mas poderia ser em qualquer lugar. E os personagens também não são muito diferentes dos que convivemos durante nossa infância. O filme é de uma simplicidade contagiante. Mostra apenas crianças sendo crianças, o que é suficiente para fazer rir ou se emocionar. Não há pontos morais sendo discutidos. Não há manique’smos. Não há grandes revelaç¿ees. O documentário apenas nos lembra do quão importante é essa fase de aprendizado que a maioria de nós não se lembra muito bem. E, claro, nos relembra de que ser professor deveria ser a profissão mais recompensada do mundo. Num mundo ideal, talvez.

“Van Helsing” já é o oposto. Tudo no filme é supérfluo, exagerado ou piegas (às vezes tudo junto). Tirando os efeitos especiais, que é o que segura você na cadeira, é uma lástima. Se eu tivesse sa’do do cinema antes dos cinco minutos finais, teria a sensação de apenas ter visto um filme idiota, mas divertido. Mas a cena final só acrescenta o ingrediente desnecessário e intragável no grande salada que uniu Drácula, Mr. Jackyl, Frankenstein, lobisomens e a igreja católica na mesma história. Mas, enfim, isso não deve ser novidade para ninguém.

Ah é. E a noite, em casa, assisti as Bicicletas de Belleville, que é ótimo e garantiu o saldo positivo do domingo. Sessão tripla!

* * * * * *

Millôr de A a Z. Hoje, a letra “B”:

BAGAGENS
O dif’cil, quando forem comuns as viagens interplanetárias, será a gente descobrir em que planeta foi para a bagagem.

BAIANO
E como dizia o baiano: “A inércia para mim já é uma orgia.”

BALEIA
Nunca engoli essa história de baleia ser mam’fero. Pode ser no máximo um mam’fero honorário.

BANDEIRA
Como os checos eu posso dizer “Svoboda Suverenita”. Ou melhor “Za Svobodu Dubcheka. Cernika.” O que ambas as frase, literalmente, não tenho a menor idéia do que querem dizer. Mas estou disposto a morrer por elas, como tanta gente morre por outras frases que também não entende.

BANQUEIRO
Banqueiro é esse cara que só se arrisca quando não há o menor perigo.

BOCA
A boca é o aparelho excretor do cérebro.

BRASIL
Brasil, condenado à esperança.

BREJAL DOS GUAJáS
“Brejal dos Guajás”, do Sarney, é um desses livros que quando você larga não consegue mais pegar.

BUNDA
Numa mulher as outras perdoam tudo, menos uma bunda maravilhosa.

BÚSSOLA
A bússola é um aparelho que indica sempre para onde você vai, mesmo que você vá prum lugar completamente diferente.

BUZINADA
A buzinada é uma forma de petrificar o pedestre na frente do carro a fim de poder atropelá-lo mais facilmente.


De A a Z

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Não tenho certeza. Mas levou trÃçs anos ou mais para ler lÃç-lo. Durante todo esse tempo, ele me acompanhou nos momentos mais ’ntimos que um ser humano pode ter. Em duas casa diferentes. Em dois banheiros diferentes. O livro “Millôr Definitivo – A B’blia do Caos” definitivamente ganhou o t’tulo “A Literatura de Banheiro Definitiva e Absoluta”. Para quem não sabe, o livro é uma coletânea, organizada em verbetes, de mais de cinco mil frases, pensamentos, divagaç¿ees etc de Millôr Fernandes, que me recuso a explicar quem é.

Com suas mais de 500 páginas, estimei que minha velocidade média de leitura foi de duas página por cagada, aproximadamente, levando-se em conta que nem sempre “filosófo” no mesmo banheiro. Dado sem qualquer valor sociológico relevante.

Enfim, ao terminar o livro, notei que, desde o in’cio, assinalei minhas frases preferidas. Assim, achei que seria válido, a n’vel de proposta, enquanto matéria de valor cultural, compartilhar as melhores com vocês, fato que, além de melhorar o n’vel literário desse site, vai garantir alguns posts mais frequentes(eu sei, eu sei, tenho sido muito relapso, mas olha a’ o governo também não tá fazendo nada!), algo conhecido também como “encher lingüiça”. Ah, e é claro que só não vou escrever nada com muitas linhas…

Hoje começaremos com os verbetes da letra “A”:

ACASO
O acaso comp¿ee o melhor da sinfonia, pinta o melhor do quadro, constrói o melhor do monumento, inventa o instante da paixão e escolhe o papel e barbante do pacote.

ADULTéRIO
Adultério: mais-valia sexual.

AFIRMATIVA
Nem só de pão vive o homem. E nem só desse tipo de afirmativa idiota.

AFRODISÕACO
O melhor afrodis’aco ainda é a carÃçncia prolongada.

AJUDA
Ser pobre não é crime, mas ajuda a chegar lá.

ALKASELTZER
A invenção do alkaseltzer foi uma tempestade num copo d’água.

AMBIÇÃO
Basta olhar o número crescente de loterias para concluirmos que todo ser humano deseja ser milionário. Nunca vi um milionário querendo ser ser humano.

AMBIVALÊNCIA
Se Deus me der força e saúde, hei de provar que ele não existe.

AMIZADE
De madrugada o melhor amigo do homem é o cachorro-quente.

Todo mundo tem uma porção de amigos que detesta e um ou outro inimigo de que gosta.

AMOR
Lição primeira e única ó amor não é coisa para amador.

O amor chega sem ser persentido e sai fazendo aquele quebra-quebra.

ANALFABETO
Quem não lÃç é mais analfabeto do que quem não sabe ler.

ANALISTA
Analista é um sujeito que partindo de premissas falsas consegue chegar a conclus¿ees perfeitamente equivocadas.

ÃÇNGULO
Fique tranquilo sempre se pode provar o contrário.

APARÊNCIA
As aparÃçncias não enganam: quando você vÃç um cara vestido de general, há uma enorme probabilidade de que ele seja isso.

APROXIMAÇÃO
A morte está sempre mais ou menos longe, mas ninguém sabe em que tipo de transporte, e como que velocidade, ela viaja.

ARMANDO FALCÃO
Ê sabido que a morte atenua os nossos julgamentos. Mas para eu mudar minha opinião sobre o Armando Falcão, ele vai ter que morrer pelo menos meia dúzia de vezes.

ARQUITETOS
Se você tem que segurar a tampa do vaso enquanto faz pipi, está num banheiro com arquitetura pós-moderna.

ASSIDUIDADE
Apesar de sexagenário, ele fazia sexo quase todos os dias. Quase no domingo, quase na segunda-feira, quase na terça…

ATEÃçSMO
O sujeito que me fará acreditar na imortalidade da alma ainda está para ressuscitar.

AUTOMÓVEL
O automóvel transformou o mundo numa faixa de asfalto e modificou definitivamente o ser humano, sobretudo ao passar por cima dele. Além disso, impôs o fascismo universal anda não-anda pare devagar atenção conserve a direita.


Garotinhos e torturadores

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A mentalidade da governadora do Rio de Janeiro e faz jus ao sobrenome de seu marido: é a mesma de um garotinho. Só isso explica como alguém que ocupa um cargo público de tanta notoriedade possa afirmar que é criacionista e não acredita na teoria da evolução de Darwin. Aliás, acho que até ofendo boa parte dos garotinhos brasileiros que, a menos que tenham terrivelmente sido evangelizados por seus pais, já aprenderam que o famoso bordão ’o homem vem do macaco”, frase não exatamente cient’fica mas que pelo menos está próxima da verdade.

Ainda que muitos biólogos afirmem que a teoria de Darwin não é suficientemente abrangente para explicar determinados fenômenos evolutivos, há pelo menos um consenso de que o conceito darwinista, no bojo, está correta (sem descartar é claro a possibilidade de que tenhamos vindo ao mundo a bordo de uma nave espacial). Agora, acreditar em criacionismo e, pior, ensinar as crianças da rede pública carioca que o homem descende de Adão e Eva é retroceder aos tempos medievais. E já que é assim, por que não dizer que o universo gira em torno da Terra e que o mundo é quadrado?

E se Deus criou a Terra, os homens, o ornitorrinco, a lesma, a gastrite e a unha encravada, também deve ter criado a maconha, a coca, os traficantes e os pol’ticos ignorantes, certo? O que explica porque é imposs’vel a esses Garotinhos lutar contra as ’vontades divinas”.

* * * * * * *

Ainda não me convenci de que a decisão do governo de cancelar o visto do jornalista do New York Times, que agora foi suspensa pela STJ, foi completamente errada. Afinal, o que Larry Rohter fez se encaixa na concepção de ’liberdade de imprensa”? Pense bem: a matéria do indiv’duo cita como fonte Cláudio Humberto, ex-porta-voz do governo Collor! Isso lá é uma fonte fidedigna? (Aliás, o pulha é colunista do NYT, veja só a que ponto a imprensa norte-americana chegou.)

Eu como já fiz parte dessa corja chamada ’jornalistas”, desconfio um pouco quando a liberdade de imprensa é usada como justificativa para qualquer disparate cometido por má fé nesses textos supostamente ’jornal’sticos”. Se Rohter fosse um colunista, vá lá. Mas não, o cara falou que a população inteira estava preocupada com o ’fato” de Lula ser bebum, o que na verdade é uma das poucas preocupaç¿ees que não tenho hoje em relação ao nosso presidente.

Pelo que li Larry Rohter não é muito bem quisto do lado de baixo do equador e sua matérias de teor questionável também desagradaram os governos argentino e venezuelano. Enfim, tem tudo para ser uma persona non grata por essas bandas. O NYT, com a arrogância natural dos grandes meios de comunicação (somado ao fato de ser dos EUA), defendeu prontamente seu empregado e não fez qualquer menção a pedidos de desculpa.

Parece-me óbvio que o governo não poderia deixar isso passar em branco. Porém, ficou bastante evidente que tentar expulsar o jornalista não é a melhor sa’da, por mais que o cara merecesse. Uma ação judicial talvez ca’sse melhor. No final das contas o algoz, virou v’tima e todo mundo está metendo o pau na decisão de fato autoritária do governo. (Aliás, as demonstraç¿ees de autoritarismo de Lula & Cia, são um assunto para ser tratado em outra ocasião.)

Independente de certo ou errado, a questão que fica é: até que ponto a liberdade de imprensa é um argumento válido? Na minha opinião, dessa vez foi um caso t’pico de abuso de poder.

* * * * *

O Luis Fernando Ver’ssimo deu o melhor t’tulo para o presidente dos EUA: ’George W. Bush, o Flagelo do Texas”.

* * * * *

Robert Fisk, como sempre, mandou bem no artigo do Independent publicado na Folha no dia 9. Perguntando-se sobre os motivos das fotos e v’deos dos presos iraquianos, ele chega à conclusão de que, ao sofrimento e aos pedidos de misericórdia, a documentação ’acrescenta a camada final de degradação” do torturado. E termina: “O homem encapuzado com fio amarrados a suas mãos já virou uma imagem tão memorável quanto à do segundo avião se chocando contra o World Trade Center. Não, é claro que não matamos 3.000 iraquianos. Já matamos muito mais.”


Garotinhos e torturadores

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A mentalidade da governadora do Rio de Janeiro e faz jus ao sobrenome de seu marido: é a mesma de um garotinho. Só isso explica como alguém que ocupa um cargo público de tanta notoriedade possa afirmar que é criacionista e não acredita na teoria da evolução de Darwin. Aliás, acho que até ofendo boa parte dos garotinhos brasileiros que, a menos que tenham terrivelmente sido evangelizados por seus pais, já aprenderam que o famoso bordão ’o homem vem do macaco”, frase não exatamente cient’fica mas que pelo menos está próxima da verdade.

Ainda que muitos biólogos afirmem que a teoria de Darwin não é suficientemente abrangente para explicar determinados fenômenos evolutivos, há pelo menos um consenso de que o conceito darwinista, no bojo, está correta (sem descartar é claro a possibilidade de que tenhamos vindo ao mundo a bordo de uma nave espacial). Agora, acreditar em criacionismo e, pior, ensinar as crianças da rede pública carioca que o homem descende de Adão e Eva é retroceder aos tempos medievais. E já que é assim, por que não dizer que o universo gira em torno da Terra e que o mundo é quadrado?

E se Deus criou a Terra, os homens, o ornitorrinco, a lesma, a gastrite e a unha encravada, também deve ter criado a maconha, a coca, os traficantes e os pol’ticos ignorantes, certo? O que explica porque é imposs’vel a esses Garotinhos lutar contra as ’vontades divinas”.

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Ainda não me convenci de que a decisão do governo de cancelar o visto do jornalista do New York Times, que agora foi suspensa pela STJ, foi completamente errada. Afinal, o que Larry Rohter fez se encaixa na concepção de ’liberdade de imprensa”? Pense bem: a matéria do indiv’duo cita como fonte Cláudio Humberto, ex-porta-voz do governo Collor! Isso lá é uma fonte fidedigna? (Aliás, o pulha é colunista do NYT, veja só a que ponto a imprensa norte-americana chegou.)

Eu como já fiz parte dessa corja chamada ’jornalistas”, desconfio um pouco quando a liberdade de imprensa é usada como justificativa para qualquer disparate cometido por má fé nesses textos supostamente ’jornal’sticos”. Se Rohter fosse um colunista, vá lá. Mas não, o cara falou que a população inteira estava preocupada com o ’fato” de Lula ser bebum, o que na verdade é uma das poucas preocupaç¿ees que não tenho hoje em relação ao nosso presidente.

Pelo que li Larry Rohter não é muito bem quisto do lado de baixo do equador e sua matérias de teor questionável também desagradaram os governos argentino e venezuelano. Enfim, tem tudo para ser uma persona non grata por essas bandas. O NYT, com a arrogância natural dos grandes meios de comunicação (somado ao fato de ser dos EUA), defendeu prontamente seu empregado e não fez qualquer menção a pedidos de desculpa.

Parece-me óbvio que o governo não poderia deixar isso passar em branco. Porém, ficou bastante evidente que tentar expulsar o jornalista não é a melhor sa’da, por mais que o cara merecesse. Uma ação judicial talvez ca’sse melhor. No final das contas o algoz, virou v’tima e todo mundo está metendo o pau na decisão de fato autoritária do governo. (Aliás, as demonstraç¿ees de autoritarismo de Lula & Cia, são um assunto para ser tratado em outra ocasião.)

Independente de certo ou errado, a questão que fica é: até que ponto a liberdade de imprensa é um argumento válido? Na minha opinião, dessa vez foi um caso t’pico de abuso de poder.

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O Luis Fernando Ver’ssimo deu o melhor t’tulo para o presidente dos EUA: ’George W. Bush, o Flagelo do Texas”.

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Robert Fisk, como sempre, mandou bem no artigo do Independent publicado na Folha no dia 9. Perguntando-se sobre os motivos das fotos e v’deos dos presos iraquianos, ele chega à conclusão de que, ao sofrimento e aos pedidos de misericórdia, a documentação ’acrescenta a camada final de degradação” do torturado. E termina: ’O homem encapuzado com fio amarrados a suas mãos já virou uma imagem tão memorável quanto à do segundo avião se chocando contra o World Trade Center. Não, é claro que não matamos 3.000 iraquianos. Já matamos muito mais.”


Garotinhos e torturadores

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A mentalidade da governadora do Rio de Janeiro e faz jus ao sobrenome de seu marido: é a mesma de um garotinho. Só isso explica como alguém que ocupa um cargo público de tanta notoriedade possa afirmar que é criacionista e não acredita na teoria da evolução de Darwin. Aliás, acho que até ofendo boa parte dos garotinhos brasileiros que, a menos que tenham terrivelmente sido evangelizados por seus pais, já aprenderam que o famoso bordão ’o homem vem do macaco”, frase não exatamente cient’fica mas que pelo menos está próxima da verdade.

Ainda que muitos biólogos afirmem que a teoria de Darwin não é suficientemente abrangente para explicar determinados fenômenos evolutivos, há pelo menos um consenso de que o conceito darwinista, no bojo, está correta (sem descartar é claro a possibilidade de que tenhamos vindo ao mundo a bordo de uma nave espacial). Agora, acreditar em criacionismo e, pior, ensinar as crianças da rede pública carioca que o homem descende de Adão e Eva é retroceder aos tempos medievais. E já que é assim, por que não dizer que o universo gira em torno da Terra e que o mundo é quadrado?

E se Deus criou a Terra, os homens, o ornitorrinco, a lesma, a gastrite e a unha encravada, também deve ter criado a maconha, a coca, os traficantes e os pol’ticos ignorantes, certo? O que explica porque é imposs’vel a esses Garotinhos lutar contra as ’vontades divinas”.

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Ainda não me convenci de que a decisão do governo de cancelar o visto do jornalista do New York Times, que agora foi suspensa pela STJ, foi completamente errada. Afinal, o que Larry Rohter fez se encaixa na concepção de ’liberdade de imprensa”? Pense bem: a matéria do indiv’duo cita como fonte Cláudio Humberto, ex-porta-voz do governo Collor! Isso lá é uma fonte fidedigna? (Aliás, o pulha é colunista do NYT, veja só a que ponto a imprensa norte-americana chegou.)

Eu como já fiz parte dessa corja chamada ’jornalistas”, desconfio um pouco quando a liberdade de imprensa é usada como justificativa para qualquer disparate cometido por má fé nesses textos supostamente ’jornal’sticos”. Se Rohter fosse um colunista, vá lá. Mas não, o cara falou que a população inteira estava preocupada com o ’fato” de Lula ser bebum, o que na verdade é uma das poucas preocupaç¿ees que não tenho hoje em relação ao nosso presidente.

Pelo que li Larry Rohter não é muito bem quisto do lado de baixo do equador e sua matérias de teor questionável também desagradaram os governos argentino e venezuelano. Enfim, tem tudo para ser uma persona non grata por essas bandas. O NYT, com a arrogância natural dos grandes meios de comunicação (somado ao fato de ser dos EUA), defendeu prontamente seu empregado e não fez qualquer menção a pedidos de desculpa.

Parece-me óbvio que o governo não poderia deixar isso passar em branco. Porém, ficou bastante evidente que tentar expulsar o jornalista não é a melhor sa’da, por mais que o cara merecesse. Uma ação judicial talvez ca’sse melhor. No final das contas o algoz, virou v’tima e todo mundo está metendo o pau na decisão de fato autoritária do governo. (Aliás, as demonstraç¿ees de autoritarismo de Lula & Cia, são um assunto para ser tratado em outra ocasião.)

Independente de certo ou errado, a questão que fica é: até que ponto a liberdade de imprensa é um argumento válido? Na minha opinião, dessa vez foi um caso t’pico de abuso de poder.

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O Luis Fernando Ver’ssimo deu o melhor t’tulo para o presidente dos EUA: ’George W. Bush, o Flagelo do Texas”.

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Robert Fisk, como sempre, mandou bem no artigo do Independent publicado na Folha no dia 9. Perguntando-se sobre os motivos das fotos e v’deos dos presos iraquianos, ele chega à conclusão de que, ao sofrimento e aos pedidos de misericórdia, a documentação ’acrescenta a camada final de degradação” do torturado. E termina: ’O homem encapuzado com fio amarrados a suas mãos já virou uma imagem tão memorável quanto à do segundo avião se chocando contra o World Trade Center. Não, é claro que não matamos 3.000 iraquianos. Já matamos muito mais.”


Kill Bill 1 e 2

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Não só assisti Kill Bill 1 como já vi a segunda parte também. E achei curioso o fato de a parte dois ter feito mais sucesso do que a primeira. Não recordo nenhuma seqüela de filme que tenha sido o carro chefe do filme anteiror. E mais estranho ainda porque achei o 1 melhor do que o 2.

Kill Bill 1 é de uma violÃçncia cômica, o que torna o filme bem engraçado para quem entra no esp’rito. Afinal, não se pode levar a sério sangue jorrando daquele jeito de braços decepados. Além disso, o filme tem aquela seqüÃçncia sensacional toda em animação. No entanto, confesso que esse negócio de todo mundo lutando kung fu com efeitos especiais (culpa da trilogia Matrix) me torra um pouco o saco. Mas enfim, melhor do que tiros para todos os lados. O que nos leva à parte dois… (não se preocupe não vou contar nada).

A continuação não é o mesmo filme. Tarantino, talvez pelo fato de o primeiro não ter emplacado muito bem, resolveu adotar uma abordagem, digamos, mais clássica. Há menos kung fu, mais tiros, fotografia mais arrojada. Porém, com exceção de algumas cenas, é menos cômico. Não só isso como tende um pouco ao trágico. Assim, a cena em que Uma Thurman treina com o caricato velho-mestre chinÃçs de artes marciais fica até meio deslocada e parece algo forçado. No final das contas, achei o filme meio bobo e os diálogos chegam aos pés dos clássicos Pulp Fiction e Cães de Aluguel, meus Taratinos favoritos.

Mas, enfim, se você gostou do primeiro, terá que ver o segundo. E provavelmente vai chegar à conclusão de que eu só falei bobagem aqui. Como sempre, aliás.


Prisioneiros do país da grade de ferro

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Mais do que um retrato do que era a “vida” (e enfatizo as aspas) no Carandiru, o documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro é um belo resumo do Brasil. O diretor Paulo Sacramento e os detentos — que capturaram muitas das imagens — expõem como o Estado acaba punindo criminosos (que, em sua maioria, são apenas negros e mestiços pobres e sem perspectivas) com um crime ainda maior: isolar o infrator em um ambiente que só reafirma o descaso social e que apenas confirma a percepção empírica de que não há justiça social no Brasil. Não importa o crime cometido, pois a sentença cruel é a mesma para todos.

O fato de o Carandiru ter sido desativado não mudou muita coisa. O mesmo, certamente em proporções menores, acontece em outros presídios e delegacias brasileiros, onde os cárceres ainda se assemelham em muito às masmorras medievais. Pessoas amontoadas em celas e entregues ao próprio azar de terem nascido pobres num país que ainda não saiu da época colonial.  Ainda que não se possa justificar os crimes com o argumento da miséria (no sentido mais amplo da palavra e de suas correlações), é inegável que ela é o que norteia a genealogia dos índices de criminalidade, eplo menos no Brasil.

Todo o sistema penitenciário brasileiro é apenas os reflexo da indiferença do governo e da “minoria próspera” em relação à “multidão inquieta”, usando os termos de Noam Chomsky. O tratamento dado aos presos significa apenas um passo à frente no caminho da negligência total. Pessoas de bem desafortunadas também não têm direito a tratamento médico, moradia, trabalho, educação decentes ou até mesmo à exigir seus direitos garantidos pela lei e pela Constituição. Em suma, não há democracia nem liberdade reais.

Ser pobre no Brasil já é uma sentença. De morte,  às vezes. A Justiça é incrivelmente rápida na hora de mandar um zé qualquer para o Carandiru (como o senegalês do filme que não entendeu como foi parar lá sem mesmo ter sido julgado) e convenientemente morosa para julgar Lalaus, Pittas e Malufs da vida,  cujos crimes deveriam ser qualificados como hediondos. Mas, nesses casos, é tudo tão lento que os crimes prescrevem e, em 10 anos, é como nada tivesse acontecido. E olha o Maluf candidato de novo aí!

Enfim, é como o Luis Fernando Veríssimo diz: na hora em que rico começar a frequentar a cadeia, o sistema penitenciário vai melhorar muito.