A Fome
Sempre vivemos com fome
Fome de comida, amor, diversão, de ganha pão
A fome é algo que vem lá dos bagos
Não temos controle
Sem saciá-la, a fome nos corrói
Nos come por dentro
A fome também tem fome
A fome é autônoma, não dá pra acabar com ela
Ela, se quiser, é que pode acabar com a gente
Vamos jogando coisas pra que ela se distraia
Mas a gente acaba se distraindo e a fome volta
A fome é necessária
Sem ela a gente pára
e olha pros lados sem saber pra onde ir…
E ficamos lá parados
até o tempo levar nossa poeira
A fome é o ciclo da vida
É uma necessidade suprema
A fome é o que nos faz continuar
Só que, às vezes, a fome é forte demais
E dói. Dói muito.
Parece que vamos morrer.
É a fome com fome
Mas sempre tem jeito de matar a fome
Quer dizer, matar não dá
Mas em algum lugar está aquilo que a fome quer
Pelo menos um pouco pra que ela nos deixe em paz
A fome é o início e o fim de tudo
É o nosso instinto de sobrevivência
É o nascimento, o leite materno
o bolo de chocolate, a vela de aniversário
o primeiro beijo, a dor de barriga
a bebedeira, o dedo quebrado, o joelho ralado
É o fim do caminho, um tanto sozinho
Enfim, quem tem fome está vivo

Inspirado! Até rolou uma inveja criativa da síntese enciclopédica dessa crônica poética.
É poesia fômica.