Não diga bobagem, Fernando Henrique.
Atribuindo a Lula um suposto alheamento da crise econômica, o ex-
presidente tenta ser irônico ao chamar seu sucessor de “grande
economista”. Falta um amigo que, em ocasiões como essa, lhe sussurre
discretamente: “Não diga bobagem, Fernando Henrique, você continua nu”.
Por Gilson Caroni Filho
A psiquiatria define obsessão como idéias ou imagens que ocorrem
repetidamente e parecem estar fora de controle. A compulsão surge,
então, para aliviar a angústia que essas idéias e imagens provocam. As
últimas críticas de Fernando Henrique Cardoso ao presidente Lula estão
inseridas em recorrentes esforços de apagar e reescrever a triste
história dos seus dois mandatos sucessivos.
Ao aproveitar um encontro com prefeitos eleitos pelo PSDB paulista
para atacar o atual governo, FHC comporta-se como uma pessoa que
apresenta duas ou mais personalidades, sendo que a função de uma delas
é dissimular seu verdadeiro estado, escondendo-se do mundo exterior,
de sua própria realidade. Curiosamente, parece viver somente agora o
seu verdadeiro exílio. Aquele que o distancia do que foi – e ainda é –
para aproximá-lo do que gostaria de ter sido. No imaginário se
reconcilia com a imagem cultivada à sombra das ilusões uspianas e
escapa da pequenez política que adquiriu.
Atribuindo a Lula um suposto alheamento da crise econômica, o ex-
presidente tenta ser irônico ao chamar seu sucessor de “grande
economista”. O tom jocoso presente em “veste a roupa, rei. Pare de
falar bobagem”, resvala para o patético quando afirma que “aqui não é
marola, não. Vai perguntar pra quem está perdendo o emprego hoje, que
é mineiro da Vale, se é marola. Não é marola. Marola é quando você não
é afetado. Está afetando.”
Provavelmente estamos diante de um lapso. O “conselheiro” do
presidente parece ter apagado da memória que, em seu governo, o país
se superou em matéria de malversação do dinheiro público, socialização
de prejuízos e entrega do patrimônio nacional. Que foram oito anos de
securitização de dívidas de latifundiários inadimplentes (o
“agrobusiness”) com o Banco do Brasil. Oito anos de crescimento mínimo
e endividamento externo máximo.
Esquece também que, como em nenhuma outra, sua gestão promoveu a
dependência do país ao capital especulativo, sucateou a Previdência,
jogou o país na recessão, e submeteu o destino da nação aos ditames do
FMI para conseguir empréstimos de socorro. A nudez presidencial nunca
foi tão escandalosa como no período compreendido entre 1994 e 2002.
O tucanato no poder, e é bom que nunca esqueçamos disso, fez das teses
monetaristas uma religião. Seu legado foi uma inflação camuflada,
desequilíbrios imensos tanto no plano interno quanto no externo. A
desnacionalização de partes substantivas da produção e serviços
nacionais foi a tônica de uma época que insiste em se apresentar como
a “era da estabilidade”.
Aumento do desemprego, congelamento – ou irrisórios reajustes
salariais dos servidores públicos – e uma escalada sem precedentes da
violência urbana foram algumas das obras marcantes de FHC. Esse mesmo
que, em tom professoral, pretende ensinar ao presidente como se
comportar em uma crise.
Segundo o economista M. Pochmann, comparando-se os dados do Censo
Demográfico de 2000 com os de 1994, encontrava-se um adicional
fantástico de sete milhões de novos desempregados gerados durante sete
anos. Quantos destes foram ouvidos pelo presidente tucano? Perto da
política arrasada do neoliberalismo, o que temos hoje ainda é marola,
sim.
Talvez fosse conveniente o ex-presidente ler publicações antigas. Na
IstoÉ, de 20 de junho de 2002, o industrial Eugênio Staub, da
Gradiente afirmava: “Estamos no sétimo ano de um governo que, em 2002,
entregará um país em piores condições do que recebeu. O responsável
pela situação atual não é o pobre, nem o americano, nem o militar,
somos nós, a elite brasileira”. Segundo Staub, a única saída era “a
eleição de um líder que fosse capaz de mobilizar a força
transformadora”. Em suma, alguém capaz de consertar os estragos
deixados pelo “grande sociólogo”. O ex-presidente que, ao deitar
falação, reaviva a memória de quais foram as vestes usadas em seu
reinado.
Falta um amigo que, em ocasiões como essa, lhe sussurre discretamente:
“Não diga bobagem, Fernando Henrique, você continua nu”.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades
Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro e colaborador do
Observatório da Imprensa.
