O destino (à maneira dos… coreanos)

Encontraram-se os dois chineses.

— Olá, Shen-Tau, por onde andou?

— Ah, passei seis meses no hospital, Shin-Fon.

— Eh, isso é mau!

— Nada. Isso é bom: casei com uma enfermeira bacaninha.

— Ah, isso é bom!

— Que o que — isso é mau. Ela tem um gênio dos diabos.

— É, isso é mau.

— Não, não, isso é bom: o avô dela deixou uma herança e eu não preciso trabalhar porque ele acha que só eu sei cuidar do gênio dela.

— Oh, oh, isso é que é bom!

— Oh, oh, isso é que é mau! Com o gênio dela, às vezes não me dá um níquel. E como eu não trabalho, não tenho o que comer.

— Xi, isso é mau!

— Engano, isso é bom. Eu estava ficando gordo e mole — vê só, agora, o corpinho com que eu estou.

— É mesmo — isso é bom!

— Que bom! Isso é mau. As pequenas não me deixam e acabei gostando de outra.

— Êpa, isso é mau mesmo.

— Mau nada, isso é bom. Essa outra mora num verdadeiro palácio e me trata como um príncipe.

— Então isso é bom!

— Bom? Isso é mau: o palácio pegou fogo e foi tudo embora.

— Acho que isso é realmente mau!

— Mau nada: isso é bom. O palácio pegou fogo porque minha mulher foi lá brigar com a outra, virou um lampião e as duas morreram num incêndio. Eu fiquei rico e só.

— Isso… é bom… ou é mau, Shen-Tau?

— Isso é muito bom. Shin-Fon.

Moral: Nada fracassa mais do que a vitória, e vice-versa.

 

FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: Nórdica, 1979. p. 61-2. 


  1. [...] leram “Fábulas Fabulosas”, do Millôr. Lá tem a fábula dos dois chineses chamados Shin-Fon e Shen-Tao. O primeiro vai relatando o que tem passado na vida e o outro responde “Isso é mau”, [...]

Leave a Reply