capítulo 2: o caso da mãe-de-santo budista

— Márcio, telefone pra você.
— Putz, estou cheio de coisa pra fazer. Mas vou atender, obrigado.
— Alô?
— Márcio, é a Gláucia – disse ela com aquele sotaque carioca inconfundível.
— (suspiro longo)… oi, Gláucia. — O nome dela não era esse.
— Temos um problema.
— Temos quem, cara pálida? —ela obviamente não tinha ligado numa boa hora. Pensando bem, nenhuma hora seria boa para ela ligar.
— Eu e você, oras!
— Tá. O que foi?
— Temos que chegar mais cedo no teatro pra pegar os ingressos. Você pode passar mais cedo em casa?
— Tudo bem, passo umas lá pelas seis, ok?
— Ótimo!
Ótimo para ela. Eu estava com um pressentimento muito ruim sobre aquele encontro. Tinha aceitado mais para ver no que dava. Porém, havia algo naquela voz…

Tudo havia começado vários meses antes, quando frequentava um videoclube perto de minha casa. Gláucia trabalhava lá. Ela tinha uns 19 anos (eu uns 23). Era meio gordinha, mas tinha um rosto bonitinho. E tinha bom gosto para filmes. Sempre que eu ia lá, ficávamos conversando sobre filmes um tempão. Era legal. Uma conversa inteligente. Cheguei até a pensar em convidá-la para sair, mas acabei desistindo da idéia, inclusive porque ela acabou saindo do emprego.
Alguns meses depois estava no Lapa 875H, ônibus que me levava do trabalho para casa. Estava lotado e eu tentava abrir caminho entre o amontoado de pessoas, pois minha parada estava se aproximando. No meio caminho, literalmente, estava ela. Rolou um papo bem rápido.
— Olá.
— Oi, Márcio.
— Nunca mais te vi na locadora… — disse enquanto puxava a cordinha. — Vou ter que descer no próximo.
— Briguei com a dona.
— Que coisa. Viu, vou ter que descer mesmo, desculpe. Mas legal te ver.
— É mesmo. A gente se cruza.
Enquanto descia a escada disse algo, brincando:
— Pega meu telefone lá na locadora e me liga.
Como Gláucia havia brigado com a dona da locadora, achei que ela não iria levar a sério o que eu disse. Levou. E, alguns dias depois, o telefone toca.
— Alô?
— Márcio? Sabe quem está falando?
— Sei. Oi, Gláucia. — Aquela voz era inconfundível.
— Então, peguei seu telefone na locadora…
— Legal.
Conversamos por um tempo e logo ela me convidou para sair. Um cineminha? Claro. Sábado? Sábado. Podia ser até legal, mas resolvi marcar à tarde, pois, se fosse roubada, teria a noite livre para compensar. Até sábado, então. Inté.
Acontece que meus pais estavam se separando na época, e, justamente no sábado, meu pai pediu ajuda para transportar algumas coisas para o apartamento onde ele passaria a morar. Achei melhor adiar o programa com Gláucia.
— Gláucia? Tudo bem?
— E aí vamos no cinema?
— Pois é, apareceu um imprevisto. Meus pais estão se separando e prometi ao meu pai que vou ajudar na mudança dele hoje. Então, não vou poder ir ao cinema. A gente pode marcar outro dia, tudo bem?
— Tudo bem, se você estiver falando a verdade… — Está certo que aquilo podia até soar como desculpa, mas uma pessoa que diz isso não pode ser muito normal.
— Claro que é verdade. Vamos marcar outro dia. — Já não estava muito certo se valia mesmo a pena encontrá-la — A gente se fala. Quer anotar o telefone do meu trabalho?
— Não quero. Se eu pegar o número, sei que vou ficar te ligando.
Meu Deus! Essa menina é um perigo, pensei.
— Então eu te ligo.
De uma coisa eu sabia, não ia ligar de jeito nenhum. Estava claro que ela tinha problemas.

Depois de alguns dias eu já tinha esquecido do assunto. Porém, um dia toca meu telefone no escritório.
— Márcio? É a Gláucia.
Alguns momentos de silêncio.
— … então você me achou… — realmente, não tinha ficado muito animado em ouvir aquela voz de novo. Tinha algo de errado naquela voz.
— É, eu liguei pra sua casa e pedi pra sua mãe me dar o telefone de seu trabalho — isso porque ela não quis anotar o número algumas semanas antes por que iria ficar ligando.
— E, aí?
— Arrumei dois ingressos para uma peça que eu gostaria muito que você fosse.
— Pode ser… — Na verdade estava pensando numa desculpa para não aceitar.
— É com a Estér Goes. — isso era para me animar a ir?
— Tá bom, vamos lá.
Achei que o melhor era ir e acabar com a história de uma vez por todas. Quem sabe não estava com uma impressão errada. Era sexta-feira e passei na casa dela às 18h com a mesma motivação com que um boi vai para o abatedouro. Ela entrou no carro e logo de saída contei uma grande mentira. Iria entrevistar a Cristiane Oliveira no dia seguinte bem cedinho. Menti tão bem que até eu mesmo acreditei no meu álibi preventivo, que em outras palavras queria dizer: depois do programa vou ter que dormir e não vai rolar chopinho e, principalmente, sexo.
En seguida, tentei conversar normalmente, mas o clima estava muito esquisito. Sabe quando você tenta fazer uma piadinha para descontrair e a outra pessoa não entende a brincadeira e tudo só piora? Não lembro bem o teor da conversa, só sei que eu falei alguma coisa que ela não gostou e então Gláucia se lamentou em voz baixa:
— Aonde fui amarrar o meu bode…
Eu tinha escutado aquilo mesmo?
— O que você disse? — perguntei.
— Nada, nada.
Foi uma pena que ela não repetisse a frase, pois seria a perfeita oportunidade de terminar o programa mais cedo.
Parei o carro na rua e fomos andando para o teatro. Eu estava completamente absorto em meus pensamentos, procurando desesperadamente uma maneira de me livrar daquele ser das trevas ao meu lado. Ela falava muito, mas não conseguia escutá-la. Só sei que uma hora ela falou:
— Você não acha legal eu falar que você está bonito?
— Acho — se ela achava que eu iria retribuir a gentileza, estava muito enganada. Posso ser cínico, mas não idiota.

Como descartei a idéia de jogá-la na frente de um ônibus em movimento, o que certamente resolveria meus problemas, meu plano básico era assistir a peça e deixá-la em casa em seguida. Porém, descobri que ela tinha dois convites para a peça que deveriam ser trocados na bilheteria por ingressos, só que estes já estavam esgotados. Torci para ela dizer: “Então me leva pra casa.”
— E agora, o que fazemos? — perguntou ela. Não era bem o que eu queria ouvir.
— Sei lá. Podemos ir ao cinema — pelo menos durante o filme não precisaria conversar com ela.
— Legal, vamos.
Estávamos perto da Avenida Paulista e minha intenção era entrar na primeira sessão possível num dos vários cinemas da região. De volta ao carro, tentei voltar a conversar como pessoas civilizadas, já que o dano já estava feito mesmo. Até que o papo estava indo bem, quando comentei que alguma conhecida minha estava grávida. Foi aí que ela disse:
— E por falar em grávida… Bem, depois do cinema a gente conversa.
Pensei com meu botões: Cacete! Essa menina quer muito me dar ou é algum problema mais esquisito. Em pouco tempo descobriria que eram os dois casos.
Minha expectativa de encontrar um filme razoável naquele horário (era umas 20h) mas era sexta-feira à noite todas as sessões estavam lotadas.
— Vamos andar pra lá que tem mais cinemas para lá — falei.
Enquanto caminhávamos paramos numa banquinha de CDs, onde tinha uns discos de jazz.
— Adoro Ella Fitzgerald — comentei.
— Também adoro ela e a Billie Holliday.
— Legal!
— Aposto que você não conhece nenhuma garota que nem eu que gosta de jazz.
— Na verdade, conheço. — Tudo bem, eu poderia ter sido mais gentil, mas ela nãoestava ajudando.

A única sessão que encontramos ingressos foi para A Gaiola das Loucas, às 21h30. Isto significava que teria de passar pelo menos mais uma hora conversando com Gláucia. Desespero. Sentamos num barzinho para passar o tempo. Ela pediu um chopp e, eu, um suco de laranja.
— Não quer um chopp também?
— Não, estou meio ruim do estômago, não vai fazer bem — não disse que ela era quem tinha me causado o mal estar.
— Toma um chopp, vai.
— Não quero.
— Só um.
— Não quero, caramba!
— Pô, sair com você está sendo um saco!
Enfim a deixa que eu precisava. Bati as mãos com força na mesa e disse:
— Então vamos embora agora!
— Ihh, ficou nervosinho é?
Minha sugestão de retirada não tinha sido aceita.
Quando meu suco chegou estava realmente irritado e comecei a mexer o líquido com o canudinho com tanta força que ele começou a espirrar para fora da copo. Resolvi adotar uma nova tática: mentir muito.
— Sabe o que é? Depois que aceitei seu convite eu voltei com minha ex-namorada, que está viajando. E só vim porque não queria furar contigo de novo.
A expressão dela mudou. Algo entre decepção e admiração. Afinal, um homem tão comprometido com sua namorada e com o sentimento dos outros merecia respeito. Aí ela baixou a guarda.
— Ahh, você voltou com sua namorada. Sabe que eu também estou saindo com um cara, mais velho. É diretor de teatro. A gente até andou pensando em morar juntos, mas ele não compartilha dos meus planos.
Fiz aquela cara de “desenvolva”, mas com medo do que ouviria. Ela prosseguiu:
— Eu até fui na Febem no fim de semana passado para cuidar do assunto…
— E… — eu já estava com uma curiosidade mórbida.
— É que eu estou pensando em adotar um filho.
Meu silêncio foi eloquente, enquanto tentava fazer cara de quem acha aquilo nomal e procurava alguma coisa inteligente para dizer.
— Legal — foi a única coisa que consegui falar.
— Sabe, tenho um instinto materno muito aflorado. Outro dia fui no médico porque sentia umas sensações esquisitas nos seios e ele me disse que eu estava com leite materno.
— Sei… — Ainda fingindo achar tudo muito normal.
— Não sei se você notou, mas sou uma pessoa muito ansiosa. — O garçom provavelmente tinha notado isso. — Para conseguir dormir eu tomo Valium e Prozac.
— Quer coisa… — já era impossível agir naturalmente.
— O médico até comentou comigo que isso era falta de sexo.
Quase disse que não poderia ajudá-la nesse aspecto, mas achei melhor ficar calado. Mesmo porque ela não parava de falar. Pelo que pude entender, todo mundo era louco na família dela: pai, mãe, tios, irmãos. Foi quando ouvi a melhor de todas:
— Fui criada como budista a minha vida toda, mas agora estou treinando para ser mãe-de-santo.
Eu só queria desaparecer. Uma mãe-de-santo budista era demais! Estava com vergonha de estar em companhia daquele ser bizarro. Olhava para o lado para ter certeza de que não havia nenhuma pessoa conhecida por perto
.
Felizmente, entramos no cinema e, por duas horas, fiquei sem ouvir mais barbaridades. Ela sentou à minha direita e eu fiquei com o corpo inclinado à esquerda durante todo o filme para não haver mal entendidos.
Finda a sessão, era chegada a hora de deixar Gláucia em casa. Mas não seria tão fácil. Logo na saída do cinema, aquilo que eu temia tornou-se realidade. Não encontrei apenas alguém conhecido. Ironicamente, cruzei com a melhor amiga de minha ex. Senti-me tão constrangido com a situação que não tive coragem de apresentar Gláucia, o que não impediu ela de dizer:
— Você não vai me apresentar não, Márcio?
Apresentei tentando fazer cara de quem não tem culpa de nada.

O caminho até a casa dela foi uma provação. Gláucia não parava de falar. Dizia que eu, mesmo que por um vacilo, tinha abrido uma brecha para ela entrar na minha vida e que ela iria querer cultivar aquela relação de qualquer maneira, que eu era muito tenso, que os cariocas sabem aproveitar a vida melhor, que eu e minha namorada deveríamos aparecer um dia na casa dela para tomar um vinho, que seu quisesse entrar a casa estava vazia e sei lá mais o que. Parei o carro em frente a casa dela e Gláucia continuou falando sem parar, mas eu não conseguia mais prestar atenção ao que ela dizia. Quando ela parou eu disse:
— Tá. Então, tchau.
— Peraí, não acabei ainda. — E continuou falando por mais alguns intermináveis minutos até que, finalmente, ela se despediu e desceu do carro.
Finalmente estava livre, mas estava aterrorizado com tudo o que ela havia dito. E se fosse verdade? E se ela quisesse fazer parte de minha vida? Mato ou me suicido? Ela era tão louca mesmo ou estava curtindo com minha cara?
Naquela noite fui de livre e espontânea vontade no forró — coisa que nunca fazia — encontrar alguns amigos, pois precisava ter de novo o gostinho de de conviver com pessoas normais.

Apesar de meus temores, nunca mais tive notícias de Gláucia. Mas até hoje morro de medo de ouvir novamente aquela voz dizer meu nome. Imagino o quão terrível encontrá-la bem na hora que a pomba-gira resolve baixar.

<- o ovo da serpente

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