O telefone toca. Atendo. Era uma voz feminina querendo falar comigo. Sou eu mesmo que estou falando. Você não sabe que está falando. Não, não sei. Eu te vi no bar Matrix. Legal, como você se chama? Ela não diz o nome. Assim, é difícil lembrar de você. Rolou um papo furado. Ela falando de um orelhão. Disse um monte de bobagens, mas não contou seu nome. Falou que tinha de desligar que depois ligava. Mas você não vai me dizer seu… Desligou.
Algum tempo depois ela ligou de novo. A voz parecia diferente. Voltamos a conversar. Depois de insistir muito ela revelou o nome. Luciana. Ainda não sei quem você é. Qual a sua aparência? Loira, 1,65 m, cabelo não muito comprido. Dizem que eu pareço com a vocalista do Cardigans. Sei, ela é bonita. Comentou que estava ligando de um orelhão porque os irmãos dela enchiam o saco se ficasse muito no telefone. Que tinha um cachorro e morava em Osasco. Hmmm, Osasco, pensei. Ela queria me encontrar. Que eu entenderia tudo qua a visse. Que queria me explicar pessoalmente. Suspeito, isso. Mas dei corda. Como ela disse que adorava ir à uma determinada livraria (hoje, a FNAC de Pinheiros) falei que poderíamos nos encontrar lá, quem sabe. Pode ser.
Ela passou a me ligar uma, duas, três vezes por dia. O que era ainda mais esquisito. Comentei com o namorado da minha irmã o caso. Perguntei se a Tatiane não morava em Osasco. Sim. Ela comentou sobre dois irmãos pentelhos e um cachorro. É, ela tem dois irmãos e um cachorro. Era ela.
Tatiane era uma garota de 15 anos com quem ele tinha tido um caso. Escrevíamos em conjunto as Cantadas Não Ortodoxas, no Empanadas, na Vila Madalena, quando a conhecemos. Completamente louca. Mentia muito. Chegou a dizer que estava com leucemia para chamar sua atenção. Foi quando ele começou a namorar minha irmã e dispensou a Tatiane, que continuou correndo atrás dele por um tempo. Como ela me conhecia, resolveu ligar para mim, mentindo para variar, com o objetivo insano de fazer ciúme no meu amigo.
Ela continuava a ligar todo dia. Já sabendo sua verdadeira identidade, fiz o jogo dela durante um tempo para ver se ela assumia. Consegui que ela admitisse que a primeira pessoa que ligou era uma amiga dela. Mas ela adiava qualquer explicação sobre o porque dos telefonemas. Uma hora, evidentemente, fiquei de saco cheio. Liguei para o meu amigo e pedi o telefone dela. Disquei.
Alô, eu queria falar com a Tatiane. É ela. Oi, Tatiane, aqui é o Márcio. Silêncio total. Ah.. oi tudo bem? Ai, preciso desligar. E desligou. Depois de um tempo ela ligou de volta. Como você descobriu? Não foi difícil, só juntei as peças. Ela começou um papo furado. Queria mesmo me encontrar, mas estava com vergonha de assumir que era ela para eu não achar estranho. Aquele dia no Empanadas estava olhando para você mas acabei ficando com a pessoa errada. Claro, claro. Você está bravo? Claro, que não. Só queria entender, você disse que queria me dizer um monte de coisa. Fiquei curioso. Peraí, tenho que desligar. E ela desligou de novo, como sempre fazia quando se sentia pressionada.
Mas ela continuava a ligar todo o dia. Minha irmã, obviamente, estava puta da vida e não teve dúvida: ligou para Tatiane e falou para ela parar de me procurar ou o namorado. Quando soube disso, fiquei alarmado. Ela tinha dito que tinha escrito uma carta para explicar tudo e eu estava muito curioso para saber o que havia nela. Liguei para Tatiane para pedir desculpas pela minha irmã, mas que era compreensível a posição de lado, blá, blá, blá. Ela contou que quase passou a carta por fax mas desistiu. Estava com medo de ligar e minha irmã atender. A muito custo consegui convencê-la a enviar o fax. Que era importante para mim, que eu queria entender o que se passava na cabeça dela e coisas do gênero. Sabia que aquele fax seria algo maravilhoso. Um monumento à insanidade humana. O fax veio.
Segue a transcrição comentada.
“Osasco, 27 de novembro de 1997
Oi!
São 14:30 deste dia feio.
Márcio,
Obviamente fiquei pensando muito no que aconteceu e cheguei a uma conclusão: fui muito estúpida, cretina e outros.”
E outros? Lindo!
” Antes de mais nada, queria te falar para não encarar este bilhete como um simples pedido de desculpas, porque se eu estivesse no seu lugar eu não o aceitaria. E mais, diria: ‘Aquela F.D… ainda tem a cara de pau!’ Por esse aspecto, me desculpe a cara de pau. E deixe que eu te explique para que você não entenda besteira. Eu já disse que não é pedido de desculpas porque (para mim) algumas coisas eram para ser ditas. Porém, você não precisava (e não merecia) passar pelo papelão da maneira como aconteceu.”
Sei, sei. Não pensei nada disso porque sei que você é louca. Papelão nada, querida, até que essa história foi divertida.
“ Procurei me colocar na posição de quem passou por essa coisa ridícula, e é óbvio, é ridículo (extremamente ridículo). A minha insensatez para perceber quando estou fazendo alguma coisa errada é bem alta.”
Essa última frase é minha preferida.
“ Sinceramente, não percebi, no momento em que conversamos, o quanto cretina estava sendo com você. Nesse sentido, me perdoe.
Uma outra vez, uma outra pessoa me disse algumas atitudes minhas merecem como resposta o silêncio e o desprezo. Percebo agora o que essa pessoa quis dizer. Mais um vez, você não merecia isso (eu acho), digo, participar dessa palhaçada.”
Chega de pedir desculpas! É claro que minha resposta será o silêncio. Só queria receber esse fax e saber do que você é capaz.
“ Tenho muita coisa para te explicar. Porque não vale a pena. Primeiro porque você não vai acreditar e segundo porque você deve estar me achando uma idiota. Mas vou te dizer (ou melhor, escrever algumas coisas que gostaria de te dizer pessoalmente).”
Finalmente parece que alguma explicação vem por aí, em vez de auto-penitência.
“ Reconheça o seu valor. Coloque isso como retribuição aos que gostam de você. Nós não temos culpa de não sermos aceitos por algumas pessoas da maneira que nos comportamos e somos.”
Hã? Que tipo de explicação é essa? É para eu reconhecer o meu valor? O seu? O que?
“ Neste caso, existem duas opções: ou tentamos nos adaptar (à medida do possível, é claro) a outra opção ou pensamos: ‘Não tenho culpa se não sou aceito por tal pessoa. É o meu jeito, sou sincero e autêntico comigo mesmo.’
OBS: Isso vale para milhares de situações; não é específico para essa droga de momento.”
Ficou super claro. Valeu pelo conselho. Mudou totalmente minha vida.
“Mais uma vez: reconheça seu valor! Dê valor também àqueles que te amam!”
Agora sim ficou claro!
“Reconheço um defeito meu. Tenho muita dificuldade em relação à segunda frase acima.”
Tem dificuldade com que frase? Pareceu-me que você tem dificuldades com quase todas elas.
“Bom, me desculpe por tudo isso.
Tatiane Kieslowsky”
Tá desculpada. Não sei se você explicou algo, mas esse fax é melhor que qualquer tese de mestrado sobre a insanidade e esquizofrenia. E não é que o fax ainda tinha uma citação no final:
“Cuide-se bem
Perigos há por toda parte
E é bem delicado viver
De uma forma ou de outra
É uma arte como tudo
Cuide-se bem
Há mil surpresas à espreita
Em cada esquina mal iluminada
Em cada rua estreita do mundo
Para nunca perder esse riso largo
E essa simpatia estampada no rosto
(Guilherme Arantes)”
Que lindo. Guilherme Arantes! Meu poeta favorito. Tocou fundo em minh’alma. Obrigado por tudo Tatiane.
Felizmente, ela parou de ligar depois disso. Admito que foi uma manobra arriscada. Mas valeu a pena, no final.
