Cíntia nasceu entre o descongelar do gelo — que torna, em certos momentos, bons ou ruins, nossas vidas mais gélidas, porém não nossas almas — e o desabrochar das flores — petúnias, lírios, arlequins, cravos, azaléias, etcétera (esta última não é flor) — as quais preenchem de formosura e encantos primaveris a nossas vidas e, agora sim, nossas almas, as quais, segundo em certas religiões e crenças (das quais nenhuma será citada, primeiro porque nada tem a ver com a nossa história, a qual eu — um mero narrador consciente de sua onisciência e onipotência perante o enredo e seus personagens — estou a narrar. E, segundo, para não encompridar a narração que pretende mostrar-se clara e objetiva, tendo em vista apenas somente os pontos principais, os quais, por um acaso, ainda não foram inseridos na narrativa, que já foi, de certa forma, comentada) supostamente irão um dia para outro plano espiritual – Céu, Inferno, Paraíso, Tártaro, Limbo, Purgatório, Érebo, Marte, Vila Alpina, etcétera (este também não é um plano espiritual).
Cíntia possuía certas características peculiares, inerentes à sua pessoas, que era de tamanho mediano (mediúnico para alguns), tipo gatinha da revista Capricho, e extremamente vaidosa. Era uma garota, ou melhor, menina-mulher excessivamente desnorteada e exageradamente mal informada (seria exagero ou hipérbole usufruir-se de termos radicais e extremistas tais como “idiota” ou “burra”, adjetivos dos quais sou testemunho vivo e eloqüente de que não lhe cabiam). Porém, tais fatos eram tão claros e tão inexoravelmente evidentes que quando ela, Cíntia, nossa heroína, passeava pela floresta (a qual possuía uma magnífica infinidade de carvalhos, ipês, mognos, anjicos, jatobás e jacarandás que, de dia, atenuavam o calor com suas sombras, tornando qualquer caminhada mais agradável e revigorante), os pássaros — melros, pintassilgos, sabiás, etcéteras (os quais, contrariando todas as expectativas realistas, são pássaros que acabei de inventar) e, finalmente, os uirapurus — paravam de cantar quando ela passava.
“Veja só”, disse um uirapuru certo dia ensolarado, “aquela menina caleifateira e lotreteira da banda de lá do rio Japuruiguá”. É bom ressaltar que o uirapuru (assim como o autor) ignorava o significado das palavras “caleifateira” e “lotreteira”, usando-as apenas porque achava que impressionaria os outros pássaros fingindo ser um dotado intelectual. Mas estes sabiam que era balela, maracutaia do uirapuru. Cíntia, porém, nem desconfiava da zombaria do passaredo.
Um dia, amanhecido ao som do cantarolar das alcoviteiras e do exalar dom perfume das majestosas laranjeiras — das quais, dizia a lenda, não se colhia laranjas, mas sim raspadinha de groselha — ela acordou lentamente em sua cama redonda coberta com lençóis de cetim, muito suaves por sinal, onde passara noites cintilantes tendo sonhos embriagantes com a volta daquele que, em dias passados, trouxera-lhe a alegria e os prazeres que, nos últimos tempos, a vida lhe ocultara: o Pingüim Amigo. E notou estranhas protuberâncias em suas costas, onde se notava claramente alguns problemas de coluna. Mas nada preocupante.
Olhou-se no espelho, todo de cristal, presenteado por seu pai — um forte lenhador que sonhava ser uma analista de sistemas ou um paquibaquígrafo e que morreu num dia fatídico em que tropeçou em seu orgulho – e de sua mãe — uma vendedora de produtos da Amway que um dia resolveu participar de uma maratona e nunca mais aparecer — e viu que lhe nascera asas enormes e brancas parecidas com as do anjo Gabriel, um arcanjo do Senhor, o qual ela nunca vira pessoalmente; nem o anjo, nem o Senhor.
“Pô!”, exclamou Cíntia com seus botões (15 no total, todos de madrepérola), meditando e analisando o que via no reflexo do espelho. “Nunca mais poderei dormir com o nariz para cima!” E completando seu raciocínio:
“Cacilda!!!!”
E os pássaros novamente riram-se dela e caíram todos da árvore…
