Ainda recordo claramente as célebres palavras de Adamastor, o velho sábio, quando me disse:
— O gato fica estático à janela do banheiro, observado todos os seus pensamento e julgando-te. Dito isso, desfaleceu sobre o gramado da Praça Panamericana e, durante seus enclausuro sono, repetiu três vezes, em aramaico, que eu era lindo. Porém, eu sabia que ele sabia que eu não sabia que ele sabia que eu sabia, não tinha certeza do quê, mas sabia.
Levei minhas mãos à cabeça e comecei a chorar desenfreadamente num subterfúgio de desespero e de emoção. Acabei por matar a velhinha que ia passando na ocasião. Culpa dela! A maldita (que Deus a tenha) não tinha nada que passar por lá justamente no momento em que eu liberava dos sentimentos mais sórdidos e inescrupulosos. Percebi, entretanto, que estava mais aliviado. Pedi desculpas à velha, que me olhou de soslaio, e ajudei-a a sentar num banco.
Porém, súbito caí em depressão novamente (olhei em volta e vi que Adamastor tinha se ido), pois percebi que havia me enquadrado no sistema. Comecei a vagar vagamente pela Praça Panamericana acompanhadamente sozinho, através das calmas e turbulentas avenidas. Em certo momento trombei com o Lula (o Inácio). Ele me cumprimentou, disse que estava indo para a festa do Chiquinho Escarpa e foi embora sem me convidar.
Foi nesse momento em que, sem aviso prévio, uma lágrima saltou-me aos olhos e sorri ingenuamente quando percebi que já era novo ano.
