Se você assume que não há esperança, você garante que não haverá esperança. Se você assume que existe um instinto para a liberdade, surgem oportunidades para mudar as coisas e há a possibilidade de que você contribua para fazer um mundo melhor. A escolha é sua. (Noam Chomsky)
A eterna “crise” brasileira me faz pensar no filme Matrix, uma ficção que dá margem a bons paralelos com o que estamos passando. Quem viu — e entendeu o filme — sabe que The Matrix era, em resumo, uma realidade virtual construida por seres extraterrestres que se passa apenas nas mentes dos seres humanos que acham que estão vivendo, mas na verdade são apenas fontes inertes de energias para seres de outro mundo.
Você acredita que as leis de mercado são leis naturais? Você acha que um bilhão de dólares é o mesmo que um bilhão de notas de um dólar empilhadas? Você acha que o índice do chamado “Risco-Brasil” realmente é uma medição real? Se você respondeu sim a todas essas perguntas, Matrix é tudo o que você conhece.
O fato é que vivemos numa realidade inventada. A matemática é algo abstrato que usamos para representar o mundo real. O dinheiro, em tese, algo real ao qual atribuimos um valor abstrato, matemático. A economia é uma forma de transformar uma ciência teoricamente exata, a matemática, em algo completamente manipulável, que tenta quantificar o “valor” e o “nível de desenvolvimento” de uma sociedade ou de um ser humano. Simples, não? Tão simples quanto entender os números imaginários (afinal, todos os números não são imaginários?).
E pior dessa história é que a economia é considerada uma ciência. O sujeito faz uma faculdade e ganha o diploma para fazer cálculos e projeções “exatas” que podem ou não acontecer. Tudo depende de os seres humanos se adequarem ou não aos cálculos e às estatísticas (alguém já disse que existem três tipos de mentira: mentiras pequenas, mentiras grandes e estatístcas). Que raio de ciência que só considera os fatores imaginários e descarta os reais?
A conclusão “matemática” disso é que quem realmente atrapalha a economia são os seres humanos. Basta retirá-los da equação e nenhuma previsão econômica falhará! Mas, peraí. De onde virá a energia necessária para mover os mercados financeiros? Quer dizer, os recursos naturais estão aí, por enquanto, por isso vamos nos preocupar com eles mais tarde. Mas não é só isso que move a economia. As pessoas são um mal necessário para a economia. A solução foi fazer com que elas assumam que a economia é a realidade e que obedeçam as leis “naturais”.
E não é que o plano funciona mesmo! Basta uns dois ou três engravatados dizerem que o Brasil está em crise e olha aí a crise. Quem vai discutir com os engravatados? Vamos comprar dólar. Não importa que o dólar esteja caindo em relação ao euro. O dólar é seguro, o dólar é americano. Além do mais, os engravatados devem ser americanos — na verdade, ninguém sabe quem são, suas caras ou de onde vêm — o que é mais que suficiente para confiarmos neles.
Hoje, o mundo fica mais escandalizado com a queda da Nasdaq e a falência da Enron do que com o genocídio de afegãos e palestinos. Esse é uma das principais funções da Matrix econômica: fazer com as nossas prioridades sejam invertidas. Em vez de nos preocuparmos mais com vidas humanas, damos mais valor às empresas e ao mundo virtual que elas nos empõem. Devíamos estar comemorando a queda de gigantes como Enrol, que, se tudo der certo vai levar junto a Arthur Andersen, uma das co-resposposáveis pela elaboração da nossa Matrix. Já vão tarde.
Não é tão difícil ver o mundo além da Matrix. Como no filme, o mundo real está em ruínas. É só olhar a Argentina e a maioria dos países africanos para ver a realidade sem o efeito Matrix. Está aí na nossa cara, mas não é todo mundo que consegue enxergar.
Bem antes do atentado do WTC, escrevi uma música chamada “Maybe You’re Dead” (é em inglês mesmo) que diz:
Let the tower fall and their plan will fail
And the dreams of liberty won’t be a fairy tale
Matrix é sim um plano muito bem concebido e torres terão que cair (no sentido figurado, não por causa de aviões) para que a liberdade possa ser uma possibilidade. E, sim, sobrarão muitos escombros e ruínas, figurados ou não. É duro, mas essa é uma escolha que temos de fazer. Porém, ao contrário do filme, não precisamos de um salvador, principalmente um que atue tão mal quanto o Keanu Reaves.
