A Vida Como Ela É? – Na cama com Gil Gomes e Nelson Rodrigues

INTRODUÇÃO

À primeira vista, Nelson Rodrigues e Gil Gomes são nomes muito distantes entre si. O primeiro, um cultuado teatrólogo e escritor, o segundo, um famoso “personagem” do rádio e, atualmente, da TV. Porém, o que parece água e óleo têm, na verdade, um grande ponto em comum: um grande vínculo com o cotidiano popular. Nelson Rodrigues passou a vida escrevendo sobre o cotidiano brasileiro, seja como escritor, seja como colunista esportivo. Sua obra literária abrange as relações humanas dentro de uma sociedade violenta através fatos fictícios baseados na realidade urbana. Gil Gomes também parte do mesmo ponto, mas faz o caminho inverso, utilizando-se de fatos reais que, na sua voz, tornam-se quase fictícios. Em ambos os casos o que acontece é uma recriação da realidade, onde se apresenta visões diferentes sobre a sociedade e o papel desempenhado por seus indivíduos.

Gil Gomes é um ator em seu programa de rádio, que não vai mais ao ar. Sua voz inconfundível aliada a uma interpretação teatral faz com que até um anúncio de Iofoscal pareça algo misterioso. A peculiaridade da sua voz é, provavelmente, a chave para o sucesso do Programa Gil Gomes. Quando surgiu, a novidade atingiu diretamente as camadas populares (os ouvintes de AM), pois era difícil deixar de ser seduzido pelo clima de eterno suspense (com o fundo musical caótico de Stravinsky ou Bella Bartok), que possuía o programa. O estilo de Gil Gomes era permeado não só por recursos teatrais, mas também pela linguagem cinematográfica. Apesar de ser um programa de rádio, Gil Gomes descrevia as cenas da história como se fossem takes de um filme, através de uma narrativa elíptica que hipnotiza o ouvinte.
“Otacílio..Otacílio…bate…esmurra…arranca os cabelos dela…chuta forte o abdômen…
o rosto…pisa nas pernas…nas mãos (…) Graça no chão…o sangue vermelho…
vermelho e quente, correndo na areia…Graça morreu…”

Todos esses recursos, juntamente com uma linguagem simples e direta, acabam por criar uma áurea dramática que prende a atenção do ouvinte de forma muito eficaz. Na TV, porém, Gil Gomes perdeu muito de seu impacto e de sua teatralidade, pois programas como o Aqui Agora procuram ter um cunho mais jornalístico, utilizando-se de outra linguagem que não se adapta ao estilo do Programa Gil Gomes.

As peças teatrais de Nelson Rodrigues têm também um estilo linear e direto (enquanto linguagem), utilizando-se de frase curtas e muitas vezes inacabadas, permeadas de reticências, como é comum na linguagem popular. Porém, seu estilo é baseado na objetividade, sem os rodeios de linguagem e elipses narrativas existentes nos textos de Gil Gomes. A obra de Nelson Rodrigues não necessita de fundo musical ou de narrações retumbantes para criar um forte impacto. A força vem das relações entre os personagens que constróem uma realidade nua e crua, que bate de frente com o leitor (ou espectador). É nesse ponto que os universos de Nelson Rodrigues e Gil Gomes começam a se distanciar, pois apresentam visões diferentes do homem e a sua relação com a sociedade.

LUTA PELA DIGNIDADE

No Programa Gil Gomes, todos os personagens são inseridos em um contexto social, psicológico e comportamental, tudo para se conseguir criar uma coerência narrativa à história, oferecendo justificativas para os atos do personagem central. Para Gil Gomes, todo ser humano tem que ter um compromisso com a dignidade. “Se você agir com dignidade, pode não consertar o mundo, mas tenha certeza de uma coisa: no mundo haverá um canalha a menos”, frase sua e que é epígrafe do livro sobre sua vida. Assim, o homem estaria sempre entre a escolha entre o bem (dignidade) e o mal (criminalidade), na qual ele sempre tem a opção de escolha, que dependerá exclusivamente da sua força de vontade e de seu caráter. No caso de optar pela segunda alternativa, o indivíduo terá que enfrentar as conseqüências de seus atos, que, no final das contas, acabará fatalmente com a punição: a morte ou a cadeia. Isso não quer dizer que Gil Gomes pregue a pena de morte, ao contrário do que faz seu colega Afanásio Jazadi, que só não extermina um criminoso (ou acusado) durante o seu programa porque isso ainda é contra a lei (mas suspeito que existe muita gente que apoiaria a idéia, tendo em vista quantos aprovaram a chacina do Carandirú) .

Gil Gomes acredita, talvez ingenuamente, que o criminoso está fadado ao fracasso, por ter feito a escolha errada na bifurcação entre o caminho do bem e do mal. Entretanto, o programa sempre tenta mostrar os motivos que levam uma pessoa para o caminho do mal. Problemas psicológicos originados de traumas de infância, influências do meio social ou até mesmo fatos sobrenaturais (possessão pelo demônio, por exemplo) são fatores freqüentemente utilizados para explicar a perversão humana. Jamais se questiona as estruturas sociais como uma causa desses “distúrbios” na conduta humana e muito menos se questiona a eficácia da ação policial nos centros urbanos. A impressão que fica é de que o problema da criminalidade está muito mais ligado às fraquezas do indivíduo do que às disfunções sociais como a miséria, o preconceito e a falta de atuação governamental.

O HOMEM-BICHO

Já na obra de Nelson Rodrigues, a questão toma sentidos diferentes, que passam por caminhos mais complexos. Seus textos não procuram atribuir uma coerência e uma estrutura lógica para os seus personagens. Ele não se preocupa em justificar comportamentos, pois para ele as atitudes humanas são movidas pela irracionalidade, de modo que a estupidez e a violência são aspectos inerentes à humanidade. Hélio Peregrino expressa isso bem quando diz que Nelson Rodrigues trabalha com “o humus pré-lógico do ser humano”. A relação entre homem e sociedade não são regidas pelo bem e o mal, ao contrário do Programa Gil Gomes. Para ele, os indivíduos são guiados por uma falsa moral, que os torna extremamente ambíguos em suas relações e atos, gerando uma hipocrisia enrrustida.

A peça Beijo no Asfalto ilustra bem essa visão, quando mostra que um simples beijo pode revelar as máscaras sociais e psicológicas existentes em cada um. Esta obra, como outras do autor, tem um forte conteúdo psicanalítico, revelando conceitos jungianos presentes nos personagens (mesmo que essa não fosse a intenção de Nelson Rodrigues). O homem está sempre caminhando no limite de sua natureza e da sociedade, mas um simples fato pode destruir este aparente equilíbrio e mostrar os lados mais obscuros de cada indivíduo. No momento em que Arandir beija a pessoa que está prestes a morrer, isso desperta nele e nos outros personagens a questão do homossexualismo como algo latente do ser humano, tornando os conceitos jungianos de Anima (ou Animus) e de Sombra explícitos nesse momento. Segundo Jung, por ser caracterizado por ambigüidades, o ser humano carrega dentro de si uma porção do sexo oposto, que é reprimida em seu inconsciente, caracterizando o que chama de Sombra (simplificando ao máximo e causando caras feias nos psicólogos). No caso, a Anima é a porção mulher que repousa em cada homem (ser masculino), constituindo algo reprimido por fatores sociais. Para o psicólogo, o caminho para o ser humano “tornar-se um indivíduo” (o Processo de Individuação de Jung) seria através da descoberta de seu lado mais obscuro, o que traria por fim um equilíbrio total ao ser humano. Já para Nelson Rodrigues, a confrontação do indivíduo com sua Sombra só causa o desequilíbrio, pois os padrões impostos pela moral o impedem de aceitar a sua Sombra, o que gera a violência e ódio.

Portanto, a obra rodriguiana vê a sociedade como um potencial inimigo do homem. O “atentado contra a moral” realizado por Arandir faz com que ele seja visto como um mal para a sociedade, quando na verdade a sociedade é que se tornou sua inimiga. Arandir vive uma situação parecida com a que foi vivida por Joseph K., em O Processo, de Kafka, quem descreveu uma espécie de complô social contra o ser personagem. Apesar de saber o motivo do qual é acusado (o que Joseph K. não sabia), Arandir se encontra, de repente, acuado e perseguido por um preconceito moral e não por uma acusação com base jurídica. Este complô o leva para o seu destino: a morte, ou seja, a eliminação do inimigo, do tumor, da doença (etc.) social. Deste modo, Nelson Rodrigues expõe a humanidade – composta por seus seres pensantes e civilizados – ao ridículo, através de um niilismo quase obcecado. Para ele, o ser humano é, em sua essência, movido pela paixão e pelo ódio (sentimentos irracionais), o que promove a violência como uma ordem natural.

CONCLUSÃO: O COMFORMISMO

Gil Gomes mostra um universo planificado, onde os acontecimentos dependem fundamentalmente da capacidade de escolha entre o bem e o mal, centralizando a narrativa na trajetória de um único indivíduo. Nelson Rodrigues, por outro lado, vê a realidade de um modo multifacetado, de modo que as ações de cada indivíduo influem nas atitudes de outros, mostrando a fragilidade e corruptibilidade das relações humanas. Para Gil Gomes, a força jurídica e policial desempenha um papel importante para ordenar a sociedade, mostrando o caminho correto para uma vida digna, longe da criminalidade e que pune de modo justo – com a prisão ou com a morte – os desajustados sociais. Na peça Beijo no Asfalto, entretanto, a ação policial e jurídica é subvertida e transforma-se em instrumento nocivo a Arandir e, portanto, ao homem. O delegado Cunha e o jornalista Amado Ribeiro inventam fatos, distorcem acontecimentos para criar uma relação homossexual entre Arandir e o Morto, tudo com o objetivo de promover suas carreiras. Nelson Rodrigues nega, assim, a possibilidade da justiça judicial, pois esta é tão corrompida quanto as pessoas que a conduzem. O ser humano encontra-se em um beco sem saída, pois está preso à sua natureza, à sua falsa moral e à estrutura corruptível da sociedade.

De qualquer forma, em ambos os casos, o que se apresenta é uma visão conformista da realidade permeada de desgraça e miséria. Um por achar que a justiça tarda mas não falha e que a “dignidade” do indivíduo depende de si próprio e da sua força de vontade. O outro por negar qualquer saída para sociedade, de modo que não há nada que se pode fazer para mudar esta realidade. Tanto Gil Gomes como Nelson Rodrigues não demonstram um questionamento político-social mais profundo, como se política e sociedade fossem conceitos separados. Os personagens rodriguianos são basicamente “sujeitos psicológicos” e nunca “sujeitos políticos”; o questionamento é basicamente existencial, mostrando a oposição entre vida e morte, amor e ódio, moral e imoralidade, resumindo o indivíduo ao seu lado passional e desprezando o lado político (tal fato talvez esteja associado à postura política que Nelson Rodrigues tinha em relação ao governo militar durante as décadas de 60 e 70, o que lhe rendeu o título de reacionário e anticomunista ferrenho). Já no Programa Gil Gomes, as histórias aparentam ser uma crítica social, mas que é tão profunda como uma poça d’água. A criminalidade está associada à pobreza, mas pode ser evitada se o indivíduo escolher pelo caminho do bem, da dignidade. Portanto a culpa da criminalidade recai sobre o próprio indivíduo e não se questiona a miséria como fruto de uma política econômica ineficiente, elitista, desigual, ou qualquer que seja o adjetivo.

De qualquer modo, Nelson Rodrigues e Gil Gomes tornaram-se também personagens importantes da história e são uma forte referência para o público intelectualizado e para o popular, respectivamente, pois representam o pensamento de diversos setores da sociedade. E, no caso de Nelson Rodrigues, não há nada que possa tirar o valor literário e intelectual de suas obras, apesar de todas as críticas que se pode fazer a sua pessoa.

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